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Empresas de base tecnológica se tornam o elo frágil da cadeia de biotecnologia no País

Mesmo com as maiores oportunidades do mercado farmacêutico global concentradas na produção de medicamentos biológicos – produtos de alta tecnologia desenvolvidos a partir de células vivas , o Brasil ainda caminha lentamente quanto à estruturação de uma cadeia produtiva de biotecnologia. O problema está na alta complexidade do processo produtivo já que a produção de biológicos envolve competências e etapas complexas que exigem a formação de uma infraestrutura tecnológica e humana diversificada que muitas empresas nacionais não possuem ou não estão habituadas a fazer. Como consequência, a indústria nacional passa a depender de empresas de base tecnológica, na maioria estrangeiras, que oferecem esses serviços de acordo com as certificações necessárias. Esse quadro tem gerado uma dependência tecnológica no setor de biotecnologia, pois as empresas nacionais especializadas ainda são poucas e não conseguem atender a todas as necessidades da indústria.

De acordo com João Paulo Pieroni, gerente setorial do Departamento de Produtos para Saúde do BNDES, o baixo investimento das grandes empresas no desenvolvimento de biológicos inovadores desestimula o crescimento da cadeia produtiva do setor, o que torna a produção desses medicamentos em território nacional mais lenta e onerosa. Para ele, a principal dificuldade das empresas que compõem a cadeia de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de biológicos é a insuficiência de demanda da indústria.

“Até recentemente, não havia empresas envolvidas em atividades de desenvolvimento e produção de medicamentos biológicos com escala suficiente para sustentar empresas na cadeia. Isso trazia outros problemas a reboque, como infraestrutura inadequada em função dos elevados custos fixos para a manutenção das certificações necessárias e dificuldade de formação e manutenção de recursos humanos qualificados”, explica Pieroni.

Para o gerente, esse cenário levou a cadeia de fornecedores e prestadores de serviços tecnológicos a se tornar o elo frágil da estratégia de difusão da biotecnologia no País. “É provável que a recente demanda criada pelos grandes projetos de biotecnologia deva sustentar etapas pontuais da cadeia de P&D, mas ainda não será suficiente para um maior adensamento nas atividades de desenvolvimento tecnológico conduzidas no País”, alerta.

Modelo de negócios

As dificuldades enfrentadas pelos prestadores de serviços não se restringem à falta de demanda da indústria. As empresas de base tecnológica que compõem a cadeia produtiva de biotecnologia enfrentam fatores como o alto custo para montagem da infraestrutura dos laboratórios, falta de recursos humanos qualificados, além da elevada carga tributária e trabalhista que contrastam com a dinâmica do mercado internacional.

Taíla Lemos, diretora executiva da Gentros, acredita que a questão chave para as empresas de base tecnológica manterem a competitividade está na sustentabilidade do modelo de negócios. Segundo ela, para oferecer serviços tecnológicos de alta complexidade, as empresas precisam aprender a contornar a baixa demanda da indústria nacional e oferecer serviços mais simples para pagar o custo da infraestrutura, além de buscar clientes fora do território brasileiro. “É preciso tentar explorar o mercado internacional, como China e Índia fizeram. Eles se desenvolveram prestando serviços para os Estados Unidos. E é isso que temos tentado fazer na Gentros, realizando serviços no Brasil, mas atendendo outros mercados, pois só o mercado interno não sustenta”, avalia.

A falta de fornecedores no País é outro ponto que afeta a competitividade das empresas com relação aos preços dos serviços. Taíla explica que para cada estudo é preciso encomendar uma linhagem celular no exterior, pois por ser um serviço muito específico a indústria de biotecnologia não consegue ter todas na empresa. Esse processo demora entre 30 e 90 dias e impacta diretamente no tempo e custo de desenvolvimento do produto. “Mesmo testes mais simples, que envolvam parte de linhagem celular, não têm nenhum fornecedor no Brasil e por isso é preciso importar”, esclarece.

Fernando Tunes, diretor de Novos Negócios da Bionovis, concorda que a escassez de serviços tecnológicos no País impacta diretamente no custo de desenvolvimento dos medicamentos, principalmente na etapa mais dispendiosa da produção de biológicos e biossimilares que são os ensaios clínicos. “O custo do desenvolvimento fica mais elevado uma vez que, de partida, tem-se que arcar com despesas de logística mais complexas, taxas e impostos, que podem ultrapassar 30% sobre o valor contratado, e que não ocorreriam em um desenvolvimento local”, aponta.

O diretor acredita que a ampliação dos prestadores de serviço da cadeia produtiva de biotecnologia é a saída para tonar o setor mais competitivo. “A presença local e a concorrência entre esses prestadores de serviços tende a fazer com que a contratação no País se torne mais vantajosa, não apenas pela redução do custo de desenvolvimento, mas também pela elevação dos padrões de qualidade e atenção ao ambiente regulatório internacional”, sinaliza.

Debate

Esses e outros especialistas do setor farmacêutico irão debater os entraves que levam ao atraso da produção de medicamentos biológicos no País durante o 8º Encontro Nacional de Fármacos e Medicamentos (ENIFarMed), que acontecerá nos dias 08 e 09 de setembro, em São Paulo. O evento vai reunir indústria, governo, pesquisadores e especialistas do Complexo Industrial da Saúde para definir estratégias com foco no desenvolvimento de medicamentos de alta tecnologia no Brasil.

Serviço

8º Encontro Nacional de Fármacos e Medicamentos (ENIFarMed)

Data: 8 e 9 de setembro de 2014

Local: Av. Rebouças, 600, Cerqueira César, São Paulo, SP

Inscrições em www.ipd-farma.org.br

 

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