Boa parte das tendências globais para a Saúde em 2017 envolve avanços tecnológicos. Uma reportagem do The Wall Street Journal, por exemplo, aponta que “talvez o maior mercado a seguir na indústria de Saúde seja a tecnologia”, graças ao número baixo de profissionais de Saúde e o alto índice de envelhecimento da população. Nesse caso, continua o texto, a telemedicina é vista como centro da transformação, que poderá ser adotada em três frentes: em qualquer lugar, no consultório do médico e no hospital.

No primeiro caso, temos dispositivos, sejam wearable devices ou não, que ajudam no monitoramento, especialmente, de pacientes crônicos. Entre os exemplos estão tênis, termômetros, relógios e balanças, todos inteligentes. Nesse ponto, o paciente entra como peça central no fornecimento de informações sobre seu estado clínico e permite o tão falado cuidado remoto, com destaque para casos de emergência.

Já no segundo ponto, quando abordamos o consultório médico, as tecnologias visam ao conforto do usuário. Como resultado,  dispositivos de diagnóstico precoce, de monitoramento em tempo real e registros eletrônicos de saúde –  itens que, antes inacessíveis para os pequenos consultórios – estão disponíveis a custos acessíveis a esse público. Por fim, no terceiro âmbito, o hospital foca em eficiência de custo e precisão/performance, com ajuda de tecnologias que facilitem a gestão e o atendimento ao paciente.

Obviamente, a reportagem traça perspectivas para o mercado norte-americano. Quando o Brasil é analisado, com suas especificidades e momento de adoção tecnológica, chego às seguintes conclusões:

  1. Saúde Pública: Quando avaliada a Saúde Pública, impossível não falar da PEC 241, ou PEC 55, nomenclatura recebida agora que foi para o Senado. O mercado fala sobre perspectiva de redução de investimentos públicos, mas o fato é que a forma como esses recursos são investidos deve ser revista. Pode soar parcial, mas é um fato: o setor passa por uma evolução tecnológica e muitos dos gargalos financeiros e de tempo poderiam ser facilmente resolvidos com automação. Além disso, a análise dos dados permitiria melhor geração de insights e otimização de recursos.
  1. Hospitais: Essa melhoria de eficiência não é demandada somente por entidades públicas, encurraladas pela PEC. Hospitais, em geral, precisam mudar sua rentabilidade. Não há mais lugar para ineficiência. Na verdade, nunca teve, mas viemos num processo de endividamento permitido graças ao aumento de clientes ocasionados pelo aquecimento da economia. Contudo, na primeira chuva, as coisas mudaram. Como reflexo do desemprego – entre agosto e outubro, a população desocupada somou 12 milhões de pessoas, um aumento de 3,8% sobre o trimestre de abril a junho de 2016 e de 33,9% frente ao mesmo trimestre de 2015 – em torno de 1,5 milhão de pessoas perderam seus planos de saúde. Os hospitais foram impactados quase que instantaneamente.
  1. Medicina Diagnóstica: o mercado está no momento de investir para qualificar e integrar tecnologias. Sistemas de Comunicação e Arquivamento de Imagens (Picture Archiving and Communication System, PACS) são apenas o primeiro passo do processo de eletronização das informações sobre os usuários.
  1. Operadoras: operadoras caminham para ter maior relação com o paciente e não serem consideradas como meras pagadoras de procedimentos. A ideia é fornecer relatórios de atendimento e, até, medicina preditiva, com base nos resultados dos últimos exames. O mercado se prepara para ajudar nesse objetivo com soluções cada vez mais simplificadas, no estilo “plug and play”. Esse movimento começa a tomar força e, embora não deva haver uma adoção massiva dessas abordagens mais consultivas pelas operadoras, já deve começar um movimento de evolução na relação com o paciente.
  1. Big Data/Analytics: fala-se muito sobre o movimento de análise de grandes dados no setor, mas, antes disso, é preciso uma outra evolução: o registro e informatização das informações. Hoje os dados gerados pela área clínica estão, praticamente, totalmente desestruturados; acredito que cerca de cem hospitais, no Brasil, tenham hoje um Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP), por exemplo. O PEP ainda é uma pauta que deve ser trabalhada no Brasil, antes de adoção mais ampla de tecnologias que permitam a evolução para o estado da arte de Big Data/Analytics.
  1. Cloud computing: vejo, também uma maior adoção de projetos baseados em cloud computing pelas empresas de Saúde. Antes havia temores sobre a garantia da integridade e segurança dos dados, mas, hoje, com o conceito tendo sido testado e aprovado por outros setores da economia, a adesão já se fortalece. A ausência de investimento inicial e o custo reduzido de manutenção de tecnologias baseadas em nuvem, associadas ao custo cada vez menor dos links de internet, estimulam a digitalização de hospitais e outras entidades do setor, promovendo uma maturidade de TI mais adequada às necessidades atuais.
  1. Empoderamento do paciente: as pessoas estão chegando ao centro das estratégias de Saúde. Com cada vez mais acesso às informações e com a tecnologia permitindo não só a geração dos dados individuais, mas, também, o armazenamento dessas informações, o paciente ganha mais poder de barganha e sente, diretamente, a diferença entre as redes: aquelas de atendimento rápido e que dispensam retrabalho de cessão de informações, graças à saúde digital; e outras com processos mais morosos e menos personalizado, do modelo convencional analógico.

Todas essas tendências representam uma era sem volta para a Saúde. É só ver o que acontece, em massa, fora do Brasil, e o que já começa a se formar por aqui, com alguns casos ainda isolados. São tempos de mudança.

 

*Paulo Magnus é presidente da MV.

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