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Modernizações e ampliações da Santa Casa de Curitiba e do Hospital Psiquiátrico partem de soluções de arquitetura e engenharia que aliam a preservação do patrimônio histórico à infraestrutura

A fachada, em estilo manuelino, remonta ao período do Brasil imperial e revela um pouco da história da Santa Casa de Curitiba, instituição inaugurada por Dom Pedro II em 1880 e que, ao longo dos anos, tem investido na modernização de sua infraestrutura sem perder de vista a conservação da identidade que a caracteriza como patrimônio histórico da capital paranaense.

Referência em medicina de média e alta complexidade, a Santa Casa atende mais de 160 mil pessoas por ano, principalmente pacientes do SUS, em seus 217 leitos – 179 de unidades de internação e 38 de UTI. Com 17,5 mil m², é o mais antigo hospital do Paraná em funcionamento.

Juntamente com o Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz, a instituição integra a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba (ISCMC), gerida pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) desde 2000, após ser firmada a aliança PUC-Santa Casa, hoje Grupo Marista.

“Rica em detalhes, a Santa Casa é o terceiro imóvel mais antigo com utilização pública na cidade e um dos mais representativos do município. É difícil dimensionar o que a instituição representa para a história de tantas pessoas que têm ligações profissionais, familiares e pessoais com este espaço”, salienta a engenheira civil Jussara Ruggeri, pós-graduada em arquitetura hospitalar e administração hospitalar, que atua nos projetos de infraestrutura da ISCMC há mais de 20 anos.

Conforme ressalta o diretor-geral da Santa Casa, June Alisson Cruz, a conservação desse patrimônio histórico e o foco em áreas de excelência assistencial e educacional são as duas principais variáveis contempladas no Plano Diretor da instituição, que é um desdobramento do Planejamento Estratégico do Hospital.

“Jamais nos descuidamos da identidade deste patrimônio cultural tão rico em histórias, detalhes e referências. Seguimos cuidados específicos previamente avaliados pelos órgãos públicos competentes, novas tecnologias, novos centros de especialidades e diagnósticos. Adotamos uma engenharia a favor da preservação e da valorização do lado romântico desta bela construção”, frisa Jussara Ruggeri.

Em conformidade com os parâmetros de certificações na área de projetos de arquitetura e engenharia, segundo a profissional, são desenvolvidos os registros e arquivamentos necessários ao progresso e à evolução das tratativas e controles perante os parceiros – médicos, administradores, equipes multiprofissionais e engenharias complementares.

Metamorfose

A experiência aliada à sensibilidade é a base para as expansões e modernizações pelas quais a Santa Casa e o antigo Hospital Psiquiátrico têm passado ao longo dos anos.

Desde a última gestão do engenheiro Ivo Arzua Pereira, ex- prefeito de Curitiba e ex-provedor da ISCMC, conhecido como o “Grande Provedor da Reconstrução”, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba passa por grandes transformações realizadas a partir do projeto “Santa Casa II Século”.

A iniciativa viabilizou “alterações em termos de primeiro mundo, que resultaram em novos serviços médicos, novas tecnologias e modernos centros de especialidades”, salienta Jussara, responsável por projetos arquitetônicos de grande efeito como Ambulatórios e diversos Centros de Terapia e Diagnósticos da Santa Casa, como o de Terapia Intensiva, de Coluna Vertebral, de Quimioterapia e Nutrição Enteral e Parenteral, Unidade Coronariana, Neurocirurgia, Emergências Clínicas 24h, Diagnósticos por Imagem, Clínica Cirúrgica e Endoscopia Digestiva.

“Nas salas cirúrgicas do CCCV (Centro Cirúrgico Cardiovascular), implementando tecnologia de ponta e inovação, instalamos colunas retráteis contendo tomadas elétricas, gases medicinais e pontos de lógica. Instalamos fluxos laminares acima de cada leito cirúrgico, construímos um pavimento técnico contendo central de ar condicionado, caixas d’água, quadros elétricos, transformadores e demais equipamentos, todos isolados da área operacional do Centro Cirúrgico, o que, à época, era inovador e raro em hospitais do sul do Brasil”, detalha Jussara.

No período, segundo a engenheira, também foram criadas as UTIs Cardiovascular I e II, diretamente interligadas ao Centro Cirúrgico Cardiovascular. “Desta forma, após a recuperação pós-anestésica, o paciente pode ser conduzido diretamente ao leito de UTI sem circular pelos corredores do Hospital”, afirma.

Posteriormente, já na gestão da Aliança PUC-Santa Casa, muitos projetos foram executados para a reorganização e reocupação das Unidades no Hospital de Caridade e no Hospital Psiquiátrico, então Campus da Saúde.

A PUCPR intensificou seus esforços na continuidade deste trabalho assistencial e institucional, no fortalecimento das funções educativas, no melhor padrão de ensino, pesquisa e assistência simultaneamente e na manutenção do patrimônio. E com as obras de engenharia, na reconfiguração de unidades de internação, tornando-as unidades de referência, e na criação de novos espaços acadêmicos. Foram as primeiras movimentações rumo à excelência.

Como relata Jussara, muitas obras foram realizadas no Campus da Saúde – como a ampliação do Ambulatório da Santa Casa para a instalação do Ambulatório de Educação, o Centro de Simulação Clínica da Escola de Medicina da PUCPR em uma área de 1200 m²,  que conta com manequins de última geração que podem simular situações reais, os Ambulatórios Acadêmicos, Farmácia Universitária,  lavanderia, cozinha, marcenaria e manutenção predial centralizadas no Polo Industrial, projetos de arruamento, estacionamentos, fluxos e sinalizações e demais  importantes alterações rumo à excelência.

Sobre os fluxos externos e internos, a engenheira explica que foram avaliados a partir de setorizações existentes e novas necessidades, a fim de facilitar acessos e circulações e reduzir tempos, “sempre em busca das melhores soluções, dentro das legislações vigentes, considerando a acessibilidade, eficiência, funcionalidade e principalmente a proteção ao paciente”.

Integração

Mais recentemente, os projetos arquitetônicos, executivos e legais contemplaram melhorias nos serviços de apoio, infraestrutura e Plano de Ocupação.

“Desenvolvemos projetos para uma maior integração com a área acadêmica e científica da PUC, que muito enriquece e moderniza a medicina local. Entre eles novas unidades, biblioteca acadêmica, pesquisa clínica, CME (Central de Materiais Esterilizados), ampliação de leitos, elaboração de novos espaços acadêmicos e o projeto da grande reforma e ampliação do Centro Cirúrgico Geral da Santa Casa”, salienta a engenheira.

“No caso do projeto legal e executivo deste Centro Cirúrgico (2012/2014) com inovação e tecnologia propusemos a instalação de estativas de teto em todas as salas cirúrgicas, instalação de pisos semicondutivos, equipamentos para videoconferências, micro câmeras de monitoramento, acesso com barreira e individualizado para pacientes ambulatoriais e demais itens de tecnologia, modernização e controles inerentes à área”, comenta Jussara Ruggeri.

Os projetos se estenderam, também, às áreas de alimentação nos hospitais, as quais foram terceirizadas em 2014. “Com a inauguração do Bistrô Marista, inicialmente no Campus da PUC, logo houve a expansão para a Santa Casa”, recorda Jussara.

Atualmente, a PROJETHOS, empresa da qual Jussara é sócia-proprietária, prepara-se para o desenvolvimento do projeto executivo das UTIs Cardiológicas da Santa Casa, que segue a entrega do projeto legal já aprovado. Na sequência, o escritório trabalhará no desenvolvimento do Projevisa da área de Oncologia e, posteriormente, nos processos legais e executivos para a Central de Materiais Esterilizados e Métodos Gráficos, todos preliminarmente avaliados pelo Serviço de Vigilância Sanitária, em 2016.

No Campus da Saúde, há, ainda, um anteprojeto para o Ambulatório da Santa Casa, que deverá substituir as atuais instalações, ampliando serviços e agregando novos equipamentos de diagnósticos e demais tecnologias médicas.

 Em cada canto, uma surpresa

Edificação secular, a Santa Casa guarda muitas histórias e registros memoráveis.

Na reforma da Central de Material Esterilizado (CME), por exemplo, durante as escavações que precederam as obras de fundação, foram encontrados tijolos diferentes dos que se têm hoje, com 5 facetas e um buraco central em forma de flor.

 

“Também encontramos vigas em madeira, em perfeito estado de conservação, tanto que optamos pelo reuso das mesmas”, recorda Jussara.

Já na área onde foram criadas as suítes da “Ala Princesa Isabel”, na qual foi instalado um grande vitral de São Lucas – de autoria do reconhecido artista plástico paranaense Poty Lazzarotto –, as obras revelaram matacões de pedra nas paredes das antigas enfermarias. “Isso nos levou a alterar alguns pontos do projeto, a fim de facilitar e reduzir os custos desta etapa”, afirma a Jussara, responsável por este projeto arrojado para a época.

O cuidado com o patrimônio da instituição não se limita à conservação de sua estrutura física, estende-se à preservação de sua história. “Em 1994, realizamos uma grande reforma no salão nobre ‘Dom Pedro II’, com a inauguração da galeria dos ex-provedores”. Na ocasião, muitos familiares destes ex-provedores reviveram especiais momentos da instituição.

“Fizemos na Santa Casa o que é uma prática mundial, preservar sempre, mas sem deixar de dar vida e utilidade a estas construções seculares, ricas em histórias, em referências, em interesses múltiplos a favor da humanidade, a favor da evolução”, salienta a engenheira Jussara Ruggeri.

Vanguarda

Expoente em pesquisas na área da Saúde, por alguns anos, a Santa Casa abrigou o único banco de válvulas cardíacas para transplantes no país. No segundo semestre do ano passado, a PUCPR em parceria com a Secretaria de Saúde e Irmandade da Santa Casa de Curitiba, inaugurou o primeiro Banco Multitecidual do Brasil (BTH), projetado por Jussara Ruggeri.

“Localizado no Campus da PUCPR, o BTH conta com infraestrutura e equipamentos de alta tecnologia para melhor atender os pacientes que necessitam de transplantes de tecidos cardiovascular, ocular e músculo esquelético”, detalha a profissional.

Ainda falando em transplantes, foram projetadas suítes com arquitetura e detalhes inovadores que para a época, 1994, que superaram todas as expectativas. Atualmente, parte desta ala das suítes, Ala Princesa Isabel, é destinada, sem contrapontos, aos pacientes do serviço de transplantes que exigem cuidados e instalações específicas. “Isto é gratificante para nós profissionais da área arquitetura e engenharia da saúde, principalmente pela rápida evolução científica e tecnológica”, conta Jussara, que descerrou a fita na cerimônia de inauguração das suítes, do Salão Nobre e do Centro Paranaense de Diagnósticos por Imagem, juntamente com o Príncipe D. Bertrand de Orleans e Bragança, príncipe imperial do Brasil, trineto do imperador Dom Pedro II.

Alto padrão

Para assegurar a padronização dos projetos executivos e de design de interiores das instituições, foram criados o Caderno de Mobiliário Padrão para as Unidades Hospitalares entre 2005 e 2007 e o Caderno de Padronização de Materiais para as Unidades Hospitalares em 2010. Ambos em processo constante de atualizações e propostas revolucionárias.

“Nos mobiliários, priorizamos sempre materiais que trazem leveza, elegância e funcionalidade, de fácil higienização e movimentação, além de elevada resistência ao uso contínuo”, afirma Jussara.

A escolha das cores de paredes, revestimentos, mobílias e acessórios também é cuidadosamente realizada, “tanto que elas foram motivo de elogios por parte dos usuários, equipes profissionais e até mesmo pelo Ministério da Educação, em uma visita de avaliação dos espaços”, pontua Jussara Ruggeri.

“Trabalhamos a humanização no conforto ambiental, nas condições físicas adequadas ao acolhimento, harmonização e segurança do paciente e de todos que circulam pelo Hospital. Concentramos nossos cuidados nas cores, nos vitrais, na iluminação natural, sinalização e no conforto térmico e acústico. O trabalho das equipes de arquitetura e engenharia visa proporcionar, nos mínimos cuidados, segurança e integração na definição de fluxos adequados com foco na prevenção de riscos de infecções”, esclarece a engenheira.

Racionalidade necessária

O mais importante foi a adoção de práticas ambientalmente sustentáveis como um compromisso de todos os envolvidos.

Tendo em vista a sustentabilidade das instalações, segundo Jussara, nos projetos da Santa Casa e do Campus da Saúde, são especificados pisos recicláveis, resistentes e de fácil limpeza, sem a necessidade de produtos químicos, torneiras com acionamento automático, ambientes que exploram a iluminação natural, além de luminárias e lâmpadas mais econômicas e mobiliários em MDF, produzidos a partir de madeira reflorestada.

Aliados aos treinamentos e capacitações, a segregação racional dos resíduos através de um Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde e as Centrais de Resíduos adequadas à legislação são itens exemplares nas unidades da instituição.

Hospitais vivos

O sucesso nos projetos e intervenções realizados na Santa Casa de Curitiba e no antigo Hospital Psiquiátrico, hoje Campus da Saúde, é atribuído, na percepção de Jussara, à visão das necessidades aliada à experiência e às parcerias.

“Conseguimos projetar e executar alterações próprias de uma arquitetura de saúde, de humanização e modernização tecnológica, com todos os cuidados necessários à preservação de uma linda história. Foram muitos momentos, etapas diversas e a maior motivação sempre foi manter os hospitais vivos, operantes, modernos, educadores e exemplo para todas as gerações de profissionais da área da Saúde”, afirma.

Para a engenheira, adaptar os hospitais aos novos paradigmas de uma moderna gestão hospitalar – com visão estratégica, flexibilidade estrutural, qualidade, humanização, tecnologia e padronizações peculiares – é uma questão de sobrevivência.

“Serviços de engenharia, hotelaria, alimentação, higienização e logística convivem com os complexos cuidados da área da saúde, interagindo com eles a fim de dar condições de recuperação aos pacientes. Neste contexto, contiguidade, eficiência e racionalização são fundamentais. E na Irmandade da Santa Casa de Curitiba este trabalho vem progredindo há décadas com superação”, finaliza Jussara Ruggeri.

Matéria publicada na 23ª edição da revisa HealthARQ.

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