Fabio Jatene, diretor-geral do InCor, fala sobre a gestão de filas para cirurgias e o papel do ensino e pesquisa no Instituto


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Impossível não admirar-se com tamanha grandeza, infraestrutura, profissionais qualificados e a tecnologia de ponta que o InCor – Instituto do Coração possui. Afinal, como é possível uma instituição que atende 80% do SUS ter uma excelência comparável aos grandes hospitais privados? Quem responde a essa e outras questão é Fabio Jatene, Diretor-geral do InCor, nosso entrevistado no Saúde 10.

O professor também fala da importância do ensino e pesquisa na instituição e como o InCor conseguiu amenizar suas dívidas financeiras nos últimos dez anos. Além disso, Jatene também fala da grande procura de pacientes pelos serviços do Instituto e como sua gestão vem conseguindo atender a esta crescente demanda sem deixar de lado a qualidade do atendimento.

1- Como você analisa a proximidade do InCor com a universidade?

A hierarquia da faculdade é transmitida para o hospital. Desse modo, temos pessoas que passam a colaborar conosco muito cedo e com isso nós observamos uma tendência de carreira. Temos pessoas que fazem os vários níveis de evolução, como residência e depois doutorado e nível docência. Eu acho isso muito bom, porque permite uma renovação constante dos nossos quadros. Muitos desses profissionais jovens já são credenciados.

2- Estes profissionais respondem às demandas do InCor?

Temos quatro especialidades: cardiologia, cirurgia cardiovascular, pneumologia e cirurgia torácica. Se por um lado isso traz facilidade na possibilidade de avançar, por outro temos alguns pontos que precisam ser ouvidos. Quando focamos em poucas áreas todos os nossos colaboradores, médicos e multiprofissionais são aceitos sob determinadas exigências. Eles cuidam de problemas correlatos e parecidos dentro destas quatro especialidades. Contudo, temos a necessidade de outros especialistas, por exemplo, aqueles em problemas renais e neurológicos. Fazemos, então, uma logística para ter colegas que não pertencem diretamente ao hospital, mas que colaboram conosco na atenção aos pacientes. No hospital geral há pessoas das várias áreas trabalhando, aqui não. Nosso trabalho é praticamente de poucas especialidades e quando necessitamos de pessoas de outras áreas tem que vir de fora.

3- Cerca de 80% dos atendimentos realizados no InCor são pelo SUS. Como conseguir sustentabilidade financeira?

Temos dificuldades, principalmente de financiamento. Esse é um problema sério. Entretanto, nós temos uma complementação governamental, uma vez que é um hospital do Estado. Além disso, temos uma pequena parcela de nossos pacientes que são de convênio e isso também nos auxilia a manter uma verba maior e, consequentemente, poder manter o que temos de mais moderno na área cardiopneumologia. Se nós fôssemos um hospital puramente do SUS, sem a verba governamental e sem o mínimo que vem do convênio, nós teríamos muita dificuldade.

4- Mas não é de hoje que o SUS passa diversas dificuldades. Quais impactos dessa atual situação no InCor?

Neste momento, pela dificuldade que o SUS enfrenta de verba, nós não temos condição de abrir mão do auxilio governamental, nem do atendimento pequeno de convênios. O SUS responde a maior parte de nosso atendimento, ultrapassando 80% dos casos. Mas, se fôssemos exclusivamente SUS, teríamos muita dificuldade porque nossos equipamentos são muito modernos e caros.

5- Apesar de tudo, o InCor vem superando as dificuldades financeiras…

Há 10 anos, problemas atingiram a Fundação Zerbini, mantenedora do Incor. De lá para cá, o que se fez foi equacionar os pagamentos que nós devíamos e grande parte disso já foi feito. E para o pouco que ainda resta nós conseguimos um financiamento de muitos anos. Ou seja, temos um longo prazo para quitar esta dívida. Eu diria que este problema resolveu praticamente, porque pagamos a maior parte.

6- E como este problema já foi, em grande parte, resolvido?

Foi uma série de medidas adotadas. Uma vez que o problema foi basicamente da Fundação, nós nos organizamos para que não houvesse comprometimento do atendimento, o que de fato não houve. O atendimento do Instituto se manteve. Ajustamos as medidas que foram necessárias em devido tempo para os gestores que estavam naquela época.

7- E quanto à gestão de filas para as cirurgias, quais são suas propostas para equacionar melhor o atendimento?

Não temos no país muitos institutos especializados como o InCor. Existe certa carência destes centros em algumas regiões. Isso faz com que muitos pacientes sejam encaminhados para nós. Esse talvez seja um dos problemas que estamos enfrentando. Pela qualidade do atendimento nós somos procurados por muitas pessoas e isso cria certa dificuldade. Devemos nos organizar da melhor maneira para que seja feito o melhor atendimento.

8- Como é organizado o atendimento a essa demanda crescente?

Nós temos um atendimento no ambulatório que organiza estes pacientes por necessidades, de acordo com a gravidade e características do problema. Vamos dividindo o atendimento conforme as subespecialidades das áreas. Assim é mais fácil conseguir controlar e prestar o atendimento. Os pacientes congênitos são atendidos de uma forma organizada, com espaço próprio. Não é feito de uma forma aleatória. Isso vem surtindo bons resultados, mostrando que essa é a melhor maneira de atender o paciente.

9- Qual o papel do ensino e pesquisa no InCor?

O fator mais importante para entender o InCor é que não prestamos somente atendimento aos pacientes. Somos um forte centro de pesquisa, portanto, estamos todo o tempo pesquisando na área de nossa atuação. Nós temos quatro andares focados em assistência e três em pesquisa. Portanto, não é pouco o que nós fazemos. Na área cirúrgica, temos o desenvolvimento de um coração artificial. É um equipamento mecânico que consegue auxiliar o coração enfraquecido. Além disso, temos muitas técnicas desenvolvidas por nós que envolvem operação, procedimentos clínicos, diagnósticos e tratamentos.

10- E como estão os investimentos do InCor quanto à sua expansão?

O InCor sempre se preocupou em manter-se atualizado, com técnicas modernas. Visando isso, estamos construindo o Bloco 3 destinado para o atendimento de emergências cardiológicas e pneumológicas. Lá também teremos um centro de material estéril, área de cardiologia intervencionista e principalmente setor de emergência. O prédio está sendo demolido e reconstruído. Foi criada outra área provisória para não interromper os atendimentos durante a construção. Um desafio desta obra foi a fundação, pois temos áreas subterrâneas.

Fabio Biscegli Jatene

Possui graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina da Fundação Universitária do ABC (1978), doutorado e livre-docência pela Faculdade de Medicina da USP (1991). Ocupa o cargo de Professor Titular da Disciplina de Cirurgia Cardiovascular da FMUSP. É membro do Conselho Deliberativo HCFMUSP (2015), vice-chefe do Departamento de Cardiopneumologia da FMUSP (2015), vice-presidente do Conselho Diretor e Diretor-geral do InCor HCFMUSP (2015). Tem atuação assistencial e de pesquisa em Cirurgia Torácica e Cardiovascular.

*Matéria publicada na edição 39ª da Healthcare Management. Para conferir a edição completa clique aqui

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