O valor da tecnologia: problema ou solução para a sustentabilidade do sistema de saúde? – por Carlos Goulart


A crise econômica e o envelhecimento da população, com maior incidência de doenças crônicas complexas e caras, têm trazido um enorme desafio ao setor de saúde. A equação que precisa ser solucionada por todos os agentes desta cadeia é como obter mais eficiência e redução de custos e, paralelamente, atender a uma demanda ainda reprimida no país, prestando uma assistência de qualidade e inclusiva.

A necessidade de encontrar soluções para este difícil quebra-cabeças intensificou as discussões no setor e, em alguns segmentos, a inovação e o avanço tecnológico têm sido apontados como as causas da elevação de custos. No entanto, existem estudos e informações substanciais no mundo todo que demonstram exatamente o oposto: que as inovações médicas contribuem para desacelerar o aumento de custos do sistema de saúde ao controlar melhor as doenças, possibilitar detecção precoce e tratamentos mais eficazes, preveni-las, reduzir ou eliminar hospitalizações, entre outros benefícios de uma lista praticamente infindável.

As soluções não são simples, mas também não devem ser simplistas. A tecnologia não é problema é solução. É um elemento essencial para promover o equilíbrio e a sustentabilidade do sistema de saúde, para salvar vidas, prolongar e melhorar sua qualidade e para o próprio desenvolvimento socioeconômico do país e sua melhor inserção no competitivo cenário internacional.

Para isso, no entanto, é fundamental que seja utilizada de forma racional, – sem desperdícios e com indicações corretas -, avaliada de forma global e com bases em resultados e efetividade, e com visão de longo prazo. Esta é a lição de casa que precisamos todos fazer com urgência e de maneira mais competente do que temos feito até agora. E que só trará resultados efetivos se, em vez de buscarmos bodes expiatórios, tivermos a coragem de analisar a cadeia como um todo e seus obstáculos.

Vejamos. O acesso às tecnologias é tema recorrente e há gargalos a vencer. Falta transparência nas análises para incorporação de novos procedimentos no sistema público de saúde, que devem levar em conta o custo-benefício e não somente seu preço em relação às tecnologias já existentes.

Vivemos no país uma cultura que privilegia a solicitação excessiva e desnecessária de exames. Temos um sistema de remuneração que ganha com a realização intensiva e volumosa de procedimentos. Há problemas de gestão no sistema. Não conhecemos desfechos e resultados a longo prazo referentes ao uso das tecnologias no sistema público e não monitoramos a eficácia dos tratamentos.

A lenta adoção de tecnologias móveis e de informação, por exemplo, onera o sistema e retarda a redução dos custos em geral. Até 2017, o uso de tecnologias móveis poderia poupar 8,9 milhões de dias de consultas e atividades de médicos no Brasil, diminuindo em 30% o tempo gasto com acesso e a atualização de informações sobre o paciente. A prática representaria economia de 14,1 bilhões de dólares no Brasil, segundo estudo da PWC.

Não temos no país o chamado “horizonte tecnológico”. Devido à rapidez da inovação em saúde, governo e indústria deveriam trabalhar em conjunto para conhecer e ajustar as tendências globais de desenvolvimento tecnológico aos orçamentos disponíveis e às reais necessidades de saúde do país no médio e longo prazos. Isso possibilitaria planejamentos estratégicos mais efetivos, com redução de custos e ampliação do acesso da população às inovações.

Não podemos e não devemos deter o curso da inovação. A limitação de recursos requer estratégias bem definidas e um ajuste permanente entre os diversos participantes da cadeia de saúde, o que só é possível com uma postura colaborativa. Requer também análise acurada e realista, que leve em conta toda a complexidade do sistema, e sobretudo visão de longo prazo.

O que está em jogo é a sustentabilidade futura do sistema de saúde e nossa capacidade de atendermos adequadamente quem de fato interessa, o paciente – que, em última instância, somos todos nós.

*Carlos Alberto P. Goulart é presidente-executivo da ABIMED – Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para Saúde

**Artigo publicado na edição 43ª da revista Healthcare Management.
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